O casamento gay e os candidatos


FONTE: Estadão

O nome de Marina Silva, pré-candidata do PV à Presidência da República, figurou ontem com destaque em sites e blogs gays de todo o País. Foi por causa das declarações que deu, em entrevista, contra o casamento gay.

Não tem jeito. Entra eleição e sai eleição e o assunto continua sempre causando algum tipo de embaraço aos políticos, assim como o aborto e a maconha ­– os chamados temas delicados de campanha. Eles sabem disso e, sempre que podem, fogem deles. Se alguém pergunta ao candidato sobre economia, ele tem prazer em se alongar na resposta, mostrar seu cabedal e propostas. Se a pergunta for, porém, sobre o fim da criminalização do aborto, a resposta será curta e, de preferência, não muito definitiva.

É sabido que quanto mais o candidato se alongar, maior a chance de pisar no calo de uma parte do eleitorado. Se defender o aborto, agrada feministas, setores da área de saúde pública, parte do mundo acadêmico e algumas cabeças livre pensantes; mas também corre o sério risco de despertar a ira em grupos religiosos e afastar o eleitorado mais conservador.

Marina tentou agradar os dois lados. De olho no eleitorado gay, garantiu que é favorável à união civil entre homossexuais. E, com o outro olho no eleitorado evangélico, afirmou que não pode aceitar o casamento entre pessoas do mesmo sexo, porque se trata de um sacramento.

Parece politicamente correto. Mas não é. A candidata do PV confunde religião com Estado. Os gays não estão reivindicando sacramento religioso, mas sim direitos iguais aos de outros cidadãos perante o Estado – que, no caso brasileiro, é laico e não religioso, como ocorre no Irã. Eles sabem que a união civil é mais limitada do ponto de vista legal do que o casamento em cartório civil que está ao alcance dos heterossexuais.

José Serra, do PSDB, já deu resposta mais elegante e afiada sobre o mesmo assunto. Quando concorreu à Presidência pela primeira vez, em 2002, ao ser indagado sobre o projeto de lei que propõe a união civil entre homossexuais, eles disse sem pensar duas vezes: “O Estado não deve se intrometer na vida das pessoas.”

Pode-se dizer a favor de Marina que ele está situada, do ponto de vista dos interesses dos homossexuais, anos-luz à frente de Anthony Garotinho – político e evangélico como ela. Naquele mesmo ano de 2002, concorrendo como Serra à Presidência, pelo PSB, ele atacou frontalmente o projeto de união civil e outros direitos dos homossexuais, açulando os setores evangélicos mais conservadores. “Eu, pessoalmente, não sou frango”, fez questão de frisar o ex-governador do Rio, em tom debochado, numa entrevista, para afastar dúvidas sobre sua orientação sexual.

Grosserias e gafes são comuns nesse território. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva já protagonizou algumas. Nos anos 70 disse em entrevista que não existiam homossexuais no meio dos operários. Em 2006, em Pelotas, no Rio Grande do Sul, deixou escapar que a cidade era um “pólo exportador de veados” (falou como uma gracinha, uma piada entre amigos, sem saber que estava sendo gravado).

Grosserias e gafes à parte, o partido do presidente, o PT, foi o primeiro a tratar abertamente em seu programa da questão da defesa dos direitos dos homossexuais. E Lula, em seus dois mandatos, seguiu o que estava no programa. Entre outras coisas, organizou a primeira 1.ª Conferência Nacional de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais, em Brasília. Na ocasião, vestiu o boné usado pelos participantes do encontro e discursou contra o preconceito e a favor da igualdade de direitos.

O antecessor de Lula já havia aberto a trilha. Na segunda edição do Programa Nacional de Direitos Humanos, de 2002, Fernando Henrique Cardoso (PSDB) tratou pela primeira vez dos direitos dos homossexuais. Na cerimônia de lançamento do programa, quando um gay pôs nas mãos de Fernando Henrique uma bandeira do arco-íris, ele não a escondeu: abriu e exibiu para os participantes do encontro.

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