Direito das Pessoas Homossexuais, PL 122 e os lideres religiosos homofobicos .



Recebi o texto que compartilho com vocês do Toni, presidente da ABGLT, por um fórum de discussão do qual participo. Trata-se de um texto do Pe. Gelson Piber, de 45 anos, padre da Igreja Catolica Independente. Entrei em contato com o Padre e ele me enviou o texto com correções, autorizando-me a publicar no blog.
Boa leitura!


PL 122: Um tema nem tão controverso

Certamente lhes será surpreendente ler este tema. Perguntam-me o motivo de promover este assunto e alguns, imbuídos de má vontade digam, talvez, até que isto depõe contra a Igreja. Mas qual é o objetivo que quero alcançar? Muito simples. O tema da sexualidade e em especial o da orientação homossexual, é um tema bíblico, teológico e pastoral. Aquilo que pretendo discutir, não é a sexualidade em si, pois para ela dedico quase nada de meu tempo, mas sim que coloco o tema frente a diferentes escolas de interpretação das Escrituras e de nossa identidade como cristãos e cristãs. Esse debate não é secundário, mas importante e necessário em nossa vida como Igreja e fundametal para como testemunhamos a fé em Jesus Cristo. Este debate é aquele pelo qual nossa identidade de cristãos e cristãs se mantém ou cai.
Para sermos salvos temos que ter fé em Deus e amor no coração e não ter essa ou aquela orientação sexual. A fé e o amor nos libertam de toda servidão de uma serie de tiranias, entre elas, a lei. Este eixo central de nossa hermenêutica bíblica: fé e amor - não é negociável e nos liberta de toda tentação moralizante que tendemos a colocar na obra de Jesus de Nazaré a quem confessamos como o Cristo do Deus do Reino.
A reação de lideres cristãos ao PL 122 que pretende punir o crime de homofobia, é sumamente clara e um exemplo deste debate. Seus sermões, seus abaixo assinados, suas pressões no Congresso, suas chantagens e suas mentiras, nos revelam sua forma de fazer hermenêutica bíblica e confessional e a medida de seu compromisso com a causa do Reino de paz e de justiça, pretendido e anunciado por Jesus Cristo.
Em primeiro lugar todo debate sobre sexualidade, orientação sexual e matrimonio é um debate colocado no Reino Secular e não no Reino de Deus. A diferença destas duas áreas da soberania de Deus é essencial que a mantenhamos. No Reino Secular empregamos como ferramenta de análise a razão, enquanto que no Reino de Deus utilizamos a Revelação. Portanto nossas interferências como lideres religiosos no Reino Secular afetam o espaço de serviço e promoção de diretos de nosso próximo, seja ele crente ou não, e um dia teremos de prestar contas delas ao Senhor da Vida. Nesse espaço temos que conseguir que todos os seres humanos, bons ou maus, sejam considerados espaços sagrados e pessoas que têm igualdade de diretos.
Temos que recordar junto aos religiosos homofobicos que a Palavra de Deus não é um livro, mas sim uma Pessoa: Jesus Cristo que nos revela o amor de Deus. Temos que recordar o Credo que confessamos: Qui propter nos hómines et propter nostram salútem Descéndit de cælis. Et incarnátus est de Spíritu Sancto Ex María Vírgine, et homo factus est.
Esta é nossa cristologia. Não há mérito, condições e orientação sexual que nos impeça de nos aproximar-nos desta obra libertadora de todas as tiranias, de todos os estigmas, de todas as exclusões e de todas as discriminações que são fonte de morte e injustiça que é Evangelho de Jesus Cristo. Jesus Cristo não é Moisés e não devemos confundir a Lei com o Evangelho. A Igreja deve anunciar sempre e em toda circunstancia a graça surpreendente e escandalosa de Deus. Essa é nossa tarefa, vocação, missão e visão.
A Bíblia tem diversidade de livros de distinta qualidade e muitos de seus relatos são historias realmente pouca santas. A santidade da Palavra de Deus, que sempre é o Cristo de Deus, não se confunde com a santidade de um livro com diversas qualidades de livros, tanto entre eles como dentro deles. Nem todos os textos da Biblia têm a mesma santidade e nem tudo revela na plenitude o Evangelho, as boas novas da iniciativa de Deus de reconciliar e reconciliar-se com a criação. Quando falamos de sexualidade e casamento, estamos falando de acordos sociais que tentam proteger direitos, alguns deles muito duvidosos. O conceito, as formas e os ritos do matrimonio são uma construção cultural e religiosa. As Escrituras são um testemunho das diversas formas em que se interpretou dentro das Escrituras mesmas este conceito e a historia da liturgia e da teologia do matrimonio na comunidade cristã mostram essa constante construção e diversidade de pontos de vista sobre este tema realmente social. Quando falamos em sexualidade, homossexualidade, homofobia, casamento não estamos discutindo sobre as Escrituras, mas sim sobre acordos e leis humanas, sobre ritos humanos que não necessitamos celebrar em uniformidade. Diferente é quando falamos em amor, porque o amor procede de Deus e conhece a Deus, pois Deus é amor (cf. 1Jo 4,7-8).
Ataques aos direitos sociais das pessoas homossexuais nos desafiam a pensar novamente sobre como vivemos o compromisso que nossa fé impõe a nossa fidelidade ao Evangelho. O exercício da sexualidade não é central para nossa salvação, mas sim a fé e o amor. Ou alguém pensa que se salvará pelo exercício dessa ou daquela sexualidade? Condição sexual não é condição para crer e amar. Aceitamos realmente que só Cristo salva e evitamos qualquer outro caminho tentador pelo qual queiramos chegar a santidade e a libertação de todas as tiranias? Aceitamos só a Escritura para evitar que alguma cerimônia humana ou uma tradição cultural se infiltre em nosso conceito de inclusividade? Continuamos crendo que só a graça para que nenhum ato, obra, mérito, condição humana se infiltra em nosso conceito de discipulado e ainda sustentamos que a fé e o amor são as condições da salvação para que nunca voltemos a cair no sistema que busca a salvação através do cumprimento da Lei? Se sim, entao porque tanta preocupaçao com a preferencia sexual das pessoas.
Alguns lideres religiosos podem, com todo direito, dizer não às conquistas das pessoas homossexuais e podem tentar justificar isso com sua fraca teologia, mas é realmente uma heresia pretender impor esse não à totalidade da Igreja de Cristo. Os que consideram os atos homossexuais um pecado, mesmo os exercidos com amor e respeito e relacionamentos estáveis, têm que explicar-me como e com que hermenêutica lêem as Escrituras.
Oro e trabalho para que o Espírito que não se confunde com a Letra nos ajude a realizar um discernimento de nossa forma de ser cristãos e cristãs que queremos ser obedientes à tarefa de anunciar bênção e não condenação e preconceito. Também trabalho e oro para pedir a graça de Deus que abunde de forma que recupere na Igreja de Cristo seu lugar central do qual nunca teveriamos te-la tirado. Só o Espírito que nos ajuda a não confundir a letra com a Palavra e a Graça radicalmente inclusiva de Deus nos pode ajudar a resolver estes temas.

Deus os abençoe com paz e alegria.

Padre Gelson Piber

2 comentários:

Anônimo disse...

REligiosos não são homofobicos, so estao lutando pelo direito de opinião e manifestação religiosa, nunca vi religioso agredindo homosexual ou proibindo de entrar em igreja.
Ja os homosexuais, chamam todos os heteros de homofobicos, isso é injusto.

Renata J. disse...

Os religiosos têm que se lembrar de que são grandes formadores de opinião. Se a todo momento repetem que a homossexualidade não é normal, isso já configura homofobia. Não aceitar e ficar calado é uma coisa, mas não aceitar e pregar sua anormalidade é incitação à violência, pois não é possível prever as reações de fanáticos e pessoas com pouca capacidade cognitiva, que vê como única solução para os problemas o extermínio do que não é considerado normal.
Não chamamos todos os héteros de homofóbicos, mas uma parcela que insiste em impedir que nós sejamos nós mesmo por achar nojento, anormal, perversão etc.
Nunca vi um hétero ser convidado a se retirar de um recinto LGBT por estar beijando seu (sua) parceira. Mas o contrário é visto diariamente, inclusive com o uso de violência física.

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