"A sociedade é bissexual"




Entrevista com Vagner de Almeida publicada no Jornal A Gazeta

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Há quase 25 anos, Vagner de Almeida estuda questões de sexualidade e gênero no Brasil. Mais do que falar sobre isso, Vagner se propôs a dar voz a homossexuais e travestis em seus filmes. A violência contra quem tem coragem de fazer opções diferentes é tema recorrente em todas as suas obras. Violência essa gerada pela intolerância, pelo preconceito e pela hipocrisia. Para ele, grande parte da sociedade é bissexual e se recusa a admitir, muitas vezes para esconder a homossexualidade. "Se a gente aceitar que há outras opções além da relação homem e mulher e desistir de julgar as pessoas pela aparência, vai ficar muito mais fácil viver nesse mundo", ensina.

De onde veio a motivação para fazer filmes sobre homossexuais?
Há anos venho trabalhando com questões de gênero, direitos humanos e saúde. E desde então vinha fazendo muita coisa, como documentários e vídeos educativos para homens HSH (Homens que fazem Sexo com Homens). A ideia era fazer uma trilogia. O primeiro foi o "Borboletas da Vida", que mostra a transformação de jovens em travestis, seguido por "Basta um Dia", que mostra o cotidiano dos travestis já assumidos. Mas, quando estava me preparando para fazer o último - hoje em faze de finalização, "Sou Mulher, sou Brasileira, sou Lésbica" -, vi que quase todas as protagonistas dos dois primeiros tinham sido assassinadas. Foi aí que surgiu "Sexualidade e Crimes de Ódio", para mostrar essa realidade tão bruta vivida pelos travetis.

A gente se acostumou com uma imagem do gay glamourizado e você denuncia a violência. Como essas duas realidades se encontram?
A violência contra o gay existe em todas as esferas. A sociedade é homofóbica e intolerante e, por isso, as pessoas preferem, por autodefesa, continuar em seus casulos. Tem a violência que gera mortes, mas tem também a violência cotidiana, de xingamentos, de olhares enviesado. Os travestis ainda sofrem com a violência do sistema educacional, da comunidade onde vivem, de tudo o que eles têm que abandonar para se assumir. E tem a violência da própria comunidade GLBT, onde também há discriminação. O que se vê nas paradas gays incentiva essa glamourização. A tal ponto que o maior símbolo das paradas são as Drag Queens, que nem necessariamente gays são. Mas, no fundo, há uma grande desunião, incapaz de mobilizar. Tanto que mesmo com todas essas paradas, até hoje o abaixo-assinado do site Não Homofobia, não tem 1 milhão de assinaturas para movimentar o projeto de lei que criminaliza a homofobia.

Você está terminando um filme sobre lésbicas. A violência é maior contra elas?
Há muita violência física contra o homem gay, noticiada pelos jornais, inclusive. Mas, no caso das lésbicas, é pior, pois essa violência é velada. Ela começa dentro de casa. O menino afeminado é cobrado para ser macho pelos pais, mas a mulher é achacada, xingada, colocada para fora e tachada de "vergonha da casa". Por isso, a mulher lésbica está muito mais dentro do armário do que os homens homossexuais. O homem assumido é glamourizado, ele vira cabeleireiro, melhor amigo das mulheres. A mulher que é visivelmente percebida como lésbica não tem a mesma aceitação. Mesmo quando desenvolve atividades tipicamente masculinas.

Ela sofre também pelo simples fato de ser mulher...
Exatamente. Em primeiro lugar porque a mulher é mais frágil fisicamente, o que já dá vantagem ao homem. Em segundo lugar, por causa da sociedade em que vivemos, machista, patriarcal, que obriga mulheres a arrumar a casa enquanto o irmão pode sair para jogar bola. A mulher sofre com muitos estigmas, tem salários menores, obrigação de casar, de obedecer, de procriar mesmo quando é lésbica. A cobrança é maior, e a violência consequente dela também.

O homossexual masculino é mais aceito que a lésbica?
De certa forma, sim. O homem vira cabeleireiro, e a mulher, tem que virar estivadora? Aos poucos, essa mentalidade vai mudando. Assim como a mulher de uma forma geral vem lutando ao longo das últimas décadas para conseguir um lugar ao lado do homem na sociedade, as lésbicas começam agora essa luta pelo reconhecimento. Para elas, é mais difícil sair do armário. Tanto que as lésbicas mais novas não se masculinizam, fazem o tipo mais básico, com calça jeans, chapéus. Mas, no filme, as lésbicas destacam uma coisa: elas não querem ser aceitas, querem apenas respeito, como qualquer outra pessoa.

A aparência choca mais do que a opção sexual?
Nem todo mundo é igual, nem todo gay é afetado, nem toda travesti é briguenta. Da mesma forma, as lésbicas também podem ser femininas. Algumas pessoas, às vezes, exageram nas roupas, no comportamento. Mas você não tem o direito de julgar ninguém por isso, desde que elas não te agridam nem invadam seu espaço privado. Se todo mundo seguisse essa lógica, seria muito mais fácil viver nesse planeta. Nos grandes centros, um pouco mais tolerantes, aceita-se a criação de guetos para esses públicos, mas, no interior, os homossexuais não têm espaço. A gente vive nas capitais, glamourizando as paradas, acha que é tudo muito normal, mas o resto do Brasil não está preparado para respeitar essa diversidade.

Afinal, o que é ser homossexual no Brasil?
Essa é a pergunta que norteia o documentário sobre as lésbicas. Nas histórias, surge sempre a relação de parceria com outras mulheres, as drogas, a bebida, a obesidade e até a AIDS, pois elas também são infectadas, apesar de não se sentirem vulneráveis. Mas ser lésbica difere muito de acordo com o segmento social. A classe social influencia muito o fato de a mulher se assumir ou não. Porque elas perdem trabalho, amigos, vários direitos quando são "descobertas". A classe média e principalmente a classe alta são as mais segregadas. Muitas delas não conseguem pronunciar a palavra "lésbica". Se recusam a se colocar nesse contexto. Apenas as ativistas e as mulheres das camadas mais populares toparam aparecer no vídeo, por exemplo.

Muita gente, para não assumir, se esconde na bissexualidade, que parece até estar na moda...
Verdade, e, muitas vezes, essa postura é criticada dentro do próprio movimento GLBT. É uma situação impressionante, mas não chega a ser um fenômeno. É apenas uma coisa que está vindo à tona agora. Com a luta de vanguarda dos homossexuais, os "bi" começaram a se sentir mais confortáveis em se assumir. Nos anos 1990, teve um momento em que a bissexualidade foi muito contestada, porque todo homossexual masculino, quando ainda não podia assumir a experiência com outro homem, se desculpava dizendo que apenas "comia" os homens, que era o ativo, só para não deixar a oportunidade passar.

Hipocrisia misturada com preconceito...
A nossa sociedade, na verdade, é completamente bissexual. Não é homossexual, nem travesti, nem lésbica, principalmente se levarmos em conta o número de homens casados que transam com outros homens ou com travestis. A diferença é que, amparados no estereótipo do macho, do "comedor", eles multiplicam ainda mais os preconceitos, as piadinhas contra gays. Isso, pelo menos até o primeiro gole de bebida alcoólica, quando todos se revelam. Só que, para a comunidade GLBT, se você, em qualquer momento da sua vida, beijou ou teve relações com alguém do mesmo sexo, você é gay. Eu particularmente discordo. O fato de uma mulher ter beijado uma outra mulher uma vez ou duas não quer dizer que ela seja lésbica. Afinal, você vive num campo de sexualidade em que os desejos afloram e você tem o direito de experimentar e, no futuro, seja de curto ou longo prazo, escolher aquilo que te interessa mais.

A bissexualidade seria apenas uma transição?
A bissexualidade, para mim, é uma ponte, em que você transita de um lado para outro. Mas existe sim a bissexualidade em que você se sente atraído e excitado por ambos os sexos. Mas tem também as pessoas que se escondem na bissexualidade para não assumir 100% o lado homossexual. Muitos escondem para não atingir os filhos de um casamento heterossexual. Mas criança não é preconceituosa. Nós, sociedade, é que fazemos com que ela cresça assim. Nós ainda criamos nossos filhos dentro da heteronormatividade. E aí qualquer coisa que fuja desse padrão vai continuar sendo vista como errada, mesmo que, quando crescer, a pessoa sinta essa atração diferente, o que causa muitos conflitos. Não dá para pensar que o homem nasceu para a mulher, vice-versa e pronto. Pois há sim opções. O desejo pode ser sufocado, mas não vai ser morto, nem por psicólogos, nem por religiões.

Quem é ele
Representação. Vagner de Almeida tem 52 anos e é coordenador do Projeto Juventude e Diversidade Sexual da ABIA - Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS - no Rio de Janeiro

Ações. Faz parte da equipe do Programa de Gênero, Sexualidade e Saúde Sexual nas Comunidades Latinas da Mailman School of Public Health, na Universidade de Columbia, Estados Unidos

Trabalho. Diretor de filmes e teatro, ativista, escritor, ator e crítico de teatro, foca seu trabalho nas questões de gênero e sexualidade e a relação entre a exclusão social e saúde (www.vagnerdealmeida.com)

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