Movimento gay dos Estados Unidos ameaça romper com governo Obama



Fonte: A Capa

Insatisfeitos com os rumos do governo Barack Obama no que diz respeito às políticas públicas LGBTs, o movimento gay norte-americano prepara para o dia 11 de outubro, Dia Nacional da Saída do Armário, uma manifestação em Washington. O recado é simples: querem ser respeitados e terem os seus direitos aprovados no âmbito federal. Líderes do movimento gay avisam: se não houver a aprovação da união civil e de outros direitos nos Estados Unidos como um todo, eles irão se divorciar do governo democrata representado hoje por Obama.

Está na capa da revista gay Advocate de setembro: "Nada? Ele era a nossa grande esperança, mas ainda falta cumprir as promessas". Atrás dessa chamada nada positiva está a foto do presidente, que foi eleito com forte apoio da comunidade e de ativistas gays dos Estados Unidos. Além da respeitada revista, reportagem assinada por Dan Dimaggio, repórter do jornal Alternativa Socialista, traz luz à situação de apoio e repúdio da comunidade homossexual frente ao governo Obama, que já é chamado de "traidor" por alguns setores da militância gay. Em ambas as reportagens o fator da discórdia é o mesmo: a Lei de Defesa do Casamento (DOMA), o "Don't Ask, Don't Tell" (que proíbe pessoas LGBT no Exército de assumir sua sexualidade abertamente) , a demora em aprovar a legislação federal de crimes de ódio e a Lei de Não-Discriminaçã o dos Empregados.

Tais restrições estavam entre as propostas do governo Obama a serem combatidas. Mas até agora essas propostas seguem o caminho inverso ao que a comunidade LGBT esperava: confiança, ou como dizia a campanha, "esperança". Em junho último o atual governo emitiu nota apoiando o DOMA, com isso, os estados podem legalmente negar casamentos onde a união gay é permitida.

Alguns ativistas já começam a se manifestar publicamente contra o governo Obama. É o exemplo de Jor Mirabella, líder do grupo LGBT "Join The Impact". "Eu não deveria ter ficado tão encantado com seus belos discursos e cartazes de campanha coloridos. Sr. presidente, você não é diferente do resto. Você usou nossa comunidade para chegar à Casa Branca e agora você nos deixou de lado. Desta vez é diferente, pois não vamos aturar isso mais!."

Na longa reportagem da revista Advocate, o jornalista Michael Joseph Gross relembra as primárias, quando o movimento gay apoiava Hillary Clinton. "Nós sabíamos que ela conhecia como o poder funciona, e queríamos alguém que pudesse ganhar. Olhamos para ela e viu-se a sua maneira de entreter, sem medo de sacrificar a integridade quando o jogo exigisse", alude o jornalista.

Em seguida ele diz: "As primárias escolheram Obama e ele fez mais do que qualquer candidato já havia feito até o momento. Ele nos nomeou." O jornalista vai direto ao ponto: "Após os seus primeiros 100 dias começamos a enxergar Obama diferente". Depois cita o questionamento de um colega de profissão, Robert Gibbs, da NBC, em relação às questões gays. "O que o Obama está fazendo? Por que não faz mais e mais rápido?".

Por conta de todo esse clima pessimista e de traição está marcado para outubro a Marcha Nacional pela Igualdade em Washington. O mote da manifestação é um só: plena igualdade perante a lei para todos/as lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais. Além das críticas à morosidade do governo Obama, os organizadores da marcha também apontam os ativistas LGBTs ligados à liderança do Partido Democrata como parte da culpa por estarem em silêncio.

Cleve Jones, um dos líderes da manifestação do dia 11 de outubro, é enfático quanto à futura relação do movimento gay com a Casa Branca. "Precisamos de uma nova estratégia. Estamos cansados dessa luta estado a estado, condado a condado, cidade a cidade por frações de igualdade. Não existe fração de igualdade. Ou você é igual, ou não é", disse o ativista.

Jones diz também que os ativistas não devem "se preocupar com as supostas necessidades dos amigáveis políticos democratas, mas começar do ponto de vista das necessidades dos LGBTs". Como disse Dustin Lance Black, roteirista do filme "Milk", "nunca há um tempo conveniente para dar plenos e iguais direitos civis neste país."

À revista Advocate a ativista lésbica Kate Kendell, do Centro Nacional de Direitos Humanos para Lésbicas, faz uma análise crítica que muito lembra a realidade gay brasileira. Para ela é preciso mostrar a vida real dos gays à população norte-americana. "A maioria dos estadounidenses pensa que nós somos ricos, brancos e vivemos nas metrópoles. Mas a maioria dos homossexuais são da classe média e trabalhadores pobres. Um grande número de LGBT são de outras cores que não a branca e nós vivemos em regiões rurais e periféricas", disse.

O ativista Robin Tyler declarou ao jornalista Dan Dimaggio que com essa lerdeza o movimento gay irá se divorciar dos democratas. "Se o Partido Democrata Nacional, depois de 35 anos de promessas à nossa comunidade, não assegurar plenos direitos iguais neste país, o divórcio gay que vocês verão é o divórcio da comunidade gay do Partido Democrata. Somos um movimento pelos direitos civis. É hora de agir como um", alertou Tyler.

Em entrevista exclusiva ao A Capa, a prefeita travesti Stu Rasmussen declarou o mesmo descontentamento que assola boa parte da comunidade gay dos EUA. "Percebo que elegemos um governo que ignora o bem-estar da maioria em benefício da minoria. Eu votei em Obama como a melhor opção entre os dois candidatos, mas estou de fato desconfiada com a sua administração, que está tomando passos muito largos, sem se preocupar com as consequências" , disse.

No final de seu artigo, o jornalista Dan Dimaggio pontua alguns problemas que deveriam ser o foco do governo Obama, mas não são. Por exemplo, entre os jovens que se assumem para a família, 1 em cada 4 gays é obrigado a sair de casa. Estes jovens representam 1,6 milhão de adolescentes sem teto; nas escola a cada 10 estudantes, nove já foram alvo de homofobia e as taxas de suicídio entre os jovens LGBTs são estimadas em 4 vezes superiores aos dos jovens heterossexuais.

Já o jornalista da revista Advocate, Michael Joseph Gross, finaliza a sua reportagem de forma conciliatória. Pondera e diz que é preciso paciência com Obama. "Temos de agradecer a ele por ter quebrado o ódio (às minorias), para mostrar-nos que, sem o saber, estávamos prontos para fazer a coisa certa (votar em Obama). Agora é a nossa vez de retribuir o favor."

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